Há algo profundamente humano e, ao mesmo
tempo, profundamente divino na serenidade de Jesus. Em contraste com a
fragilidade psíquica que nos atravessa quando somos tomados pelo medo, pela
raiva ou pela ansiedade, Ele caminhava pelas experiências mais duras da
existência sem perder o eixo interno. Era traído, humilhado, abandonado, e
ainda assim permanecia inteiro. Nada o desalojava do centro de si, daquele
lugar íntimo onde a alma repousa ancorada em Deus.
Jesus não anestesiava a dor nem a negava. Ele
a reconhecia, permitia que fosse sentida, chorava quando era preciso, mas não
se deixava capturar por ela. Do ponto de vista neuropsicanalítico, isso revela
uma consciência emocional madura, capaz de simbolizar o sofrimento sem
transformá-lo em acting out, culpa ou violência. O sofrimento, para Ele, não
era punição, mas um convite ao despertar da consciência. Sua vida psíquica era
integrada. Emoção, razão e espírito não competiam entre si, mas coexistiam em
harmonia.
Diante da cruz, não reagiu com ódio nem com
desejo de retaliação. Diante da incerteza do amanhã, permaneceu enraizado no
presente. Diante do desespero humano, respondeu com perdão. Sua mente não se
fragmentava sob pressão. Pelo contrário, expandia-se. Era uma inteligência
emocional e espiritual capaz de conter o caos sem se desorganizar internamente,
algo que hoje compreenderíamos como uma forma elevada de autorregulação
psíquica e transcendência do ego ferido.
Jesus fez da própria mente um templo. Um
espaço interno silencioso, livre das amarras da aprovação externa e do medo que
paralisa. Não vivia prisioneiro do olhar do outro, tampouco governado por
impulsos defensivos. E talvez aqui resida seu ensinamento mais desconcertante
para a lógica humana: amar os inimigos. Não como submissão, mas como liberdade
psíquica. Quem ama assim não está capturado pelo trauma, pelo ressentimento ou
pela compulsão à repetição. Ele não discursava sobre liberdade. Ele a
encarnava.
Em uma era marcada pelo cansaço emocional,
pela hiperestimulação e pela ansiedade crônica, a psique de Cristo surge como
um farol clínico e espiritual. Em meio à pressa, Ele nos ensina a contemplar.
Em meio à angústia antecipatória, recorda que cada dia tem sua própria medida.
Em um mundo adoecido pelo ódio e pela fragmentação, mostra que o perdão é uma
força organizadora da alma, capaz de curar onde nenhum recurso externo alcança.
Jesus se apresenta como um antídoto à
exaustão emocional contemporânea. Com Ele aprendemos que perdoar não é
fraqueza, mas potência psíquica. Que a dor pode ser elaborada e transformada em
sentido. Que a verdadeira grandeza está em preservar um coração leve mesmo
quando a existência pesa. Sua vida nos ensina que é possível atravessar o caos
sem perder a paz, sentir profundamente sem se perder de si e amar sem adoecer.
Porque a paz que Ele revela não depende das
circunstâncias. Ela nasce de dentro, de uma alma reconciliada consigo, com o
outro e com Deus. E quando essa paz nasce, o mundo interno se reorganiza. E,
como consequência, tudo ao redor começa a mudar de cor.
Com carinho
Carlos Rondini 2026
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