A neuropsicanálise observa isso com clareza. A atenção é a porta de entrada da memória, da identidade e do sentido. Quando a atenção é capturada o tempo todo por estímulos rápidos, repetitivos e artificiais, o cérebro entra em estado de alerta contínuo. Não há repouso psíquico. Não há elaboração. Não há profundidade.
Por isso a memória começa a falhar. Datas importantes somem. Rostos se confundem. Conversas significativas desaparecem. Lugares que antes despertavam emoção hoje parecem distantes, quase irreais. A pessoa vive, mas não habita plenamente a própria experiência. É como se estivesse sempre de passagem por si mesma.
O corpo dá sinais. Calor constante, ansiedade difusa, dificuldade de estar presente. A mente vagueia mesmo quando o corpo está parado. Você está no almoço em família, mas responde mensagens. Está diante de alguém que ama, mas sente dificuldade até para escrever uma frase de afeto. Não por falta de amor, mas por empobrecimento da vida interior.
Isso é dissociação. Uma dissociação coletiva, silenciosa, normalizada. O sujeito está fisicamente aqui, mas psiquicamente em outro lugar. Preso em telas, métricas, imagens perfeitas, performances editadas. Uma vida vivida para ser postada, não para ser sentida.
O sistema lucra com isso. Quanto mais fragmentada a mente, mais previsível o comportamento. Quanto menos silêncio interno, menos pensamento crítico. Quanto menos presença, menos resistência. Não é coincidência. É projeto.
Estamos produzindo uma geração que existe, mas não sente profundamente. Que se comunica o tempo todo, mas quase não se encontra. Que consome estímulos sem parar, mas vive um vazio crescente. Fantasmas conectados, sempre online, raramente vivos.
A pergunta que precisa ser feita é dura, mas necessária. A gente ainda existe de verdade ou só reage? Ainda vive ou apenas responde a notificações? Ainda escolhe ou apenas é conduzido?
Talvez seja hora de interromper esse fluxo. Recuperar a atenção como um ato de sobrevivência psíquica. Voltar a habitar o corpo, o tempo, o encontro. Viver um pouco antes de morrer. Porque sem presença, não há vida. Só funcionamento.
Com carinho Carlos Rondini 2026.